Seu lugar

Despedidas sempre são coisas muito difíceis de lidar. Especialmente à medida que se cresce e se perde o direito de espernear, pedir pra ficar, segurar o elevador, não deixar ir embora. Sendo grande não se faz mais isso. A vergonha não deixa. O orgulho não deixa. Você pode estar lá, fazendo estardalhaços homéricos dentro da cabeça, gritando com olhos pra que a pessoa fique. Mas respira. E aceita. E fala que está feliz. Sim, vai ser o melhor pra você, diz com pesar. Você até acredita que está feliz, e sabe que, de certa forma, você está feliz, afinal, a despedida é pelo bem de quem a gente gosta. Porra, mas a gente queria que a pessoa ficasse. Ou, pelo menos, que nunca tivesse ficado. Que tivesse passado e ido, assim, bem rápido. Assim, pra não deixar marcas. Pra ir embora e ser uma lembrança leve. Quase uma paisagem. Paisagens dão saudades suaves. Você se lembra do lugar, empresta da memória a sensação de estar ali por um instante, e volta. Pessoas, não. Com pessoas não é assim. Tem aquela música que vocês conheceram juntos. Tem aquela comida que só ela gosta. Tem os afagos que ninguém mais faz.  Tem a solidão. E quando a saudade começa a se infiltrar na alma é assim, você vai se lembrando de um, de outro, de todos. Vai logo se inundando. A vontade é de armar uma festa e trazer todo mundo. Os que pisaram na bola muito feio, os que a gente magoou pra valer, os que sumiram naturalmente, os que continuam firmes não se sabe até quando.  Enfim, aqueles que a gente ama e amou. E se amou é porque ainda ama. Ainda que embaraçado pela raiva, o amor deve estar ali, magoado e persistente. Querendo ir embora e ficar em paz, mas permanecendo. O amor incomoda. Se não fosse amor não incomodava. Trazer todos. Uma festa sem roupa bonita, sem maquiagem na cara, sem frescura. Um momento assim, depois do almoço, pra discutir aquelas bobagens que vem à cabeça e que a gente não precisa ficar pensando muito pra dizer.  Pra rir sem ajeitar a roupa. Pra ir ao banheiro sem se demorar no espelho. Pra respirar tranquilo e se sentir, enfim, no seu lugar.

Nota-se

Na marginal, um acidente. Nem devia ser tragédia suficiente pra tanta pompa. Se alguém caiu da ponte, e há alguém bebendo cerveja na avenida, que diferença faz? Os olhos vão sempre desviar a atenção, e isso não vai demorar muito. Afinal, há um dia bonito. No céu refletido no vidro dos carros, nos pés frios, naquela pontinha de ruga da vó, naquele domingo, há sempre um dia bonito para se enxergar nisso tudo.

História(s)

Quando passo os olhos sobre retinas alheias
Nada me vêm à mente
Senão
Pessoas

Pois no rosto do desconhecido
Encostado no poste ao lado
Não vejo boca
nariz
ou olhos

Vejo seu pai
Sentado no sofá da sala
Lendo o jornal

Ou sua mãe
dormindo depois do fim
da novela

Talvez ainda
Sua namorada o surpreenda
Com um beijo na nuca
Enquanto o observo

Ou quem sabe,
Nada disso aconteça
Ou tenha acontecido

Certamente a história é outra

Mas de uma coisa não há dúvida:
Há pessoas

Há história(s).

Na propriedade dos mortos

Anônimos esperando que Jesus venha logo
Suspiram preces ao vento

Na propriedade dos mortos

A inveja que antes fulminava
Entre um homem e outro
Perdeu terreno
Na propriedade dos mortos

O amor que antes rasgava
Vestidos e corações
Não possui residência
Na propriedade dos mortos

O ódio que antes queimava
Os olhos do vilão
E a consciência do mocinho
Teve sua invasão frustrada
Na propriedade dos mortos

O medo que antes prendia
Pernas e braços
Não encontrou espaço
Na propriedade dos mortos

Todos
Na propriedade dos mortos
Imploram
Pela remissão do juízo

Final
mente poderão
errar nova
mente.

(na propriedade dos vivos)