Passei pela mesma esquina de novo, sentei no mesmo banco do ponto de ônibus. Olhei as mesmas caras, olhei? Jovens casais, velhos, adolescentes com fones de ouvidos, adultos com rostos cansados.

No poste um cartaz com rostos desaparecidos. Fiquei me perguntando quantos daqueles rostos já passaram desapercebidos por meus olhos. Quantas árvores? Quantos sóis? Quantos, quantos, quantos?

Não sou de divagações, mas a solidão e o tempo fechado me trancafiaram em uma conversa comigo mesmo, e aqui estou, fazendo perguntas sem respostas, me perdendo em ruas sem saída.

Não estou em leito de morte, nem tenho propósito de vida, sigo assim, andando por avenidas sem movimento, pegando ônibus sem destino, chutando latas pelas calçadas, bebendo sucos com gosto de água, tentando ler sem enxergar letras, brigando com as luzes, chutando a escuridão, perdido na contradição.

E alguém me pergunta de onde vem isso tudo? De onde vem a insatisfação? De onde vem a luz?

Do nada. Do nada surge a inquietação, do nada corpos se movem, pessoas acordam. O nada que tira do conforto, o nada que te move a uma casa de novos pensamentos, um nada que te faz olhar a janela da frente e imaginar quantos sorrisos surgem ali, quantas lágrimas, quantos amores?

Um nada que te faz mergulhar em si, não importa quão turvo você seja, e lá está você, mergulhado. Quando enfim você enxerga algo em meio a toda aquela turvacidade, enfim uma corda te traz de volta à normalidade, de volta a paz.

Daniela A. Marques

“The dream is over
What can I say?
The dream is over
Yesterday
I was the Dreamweaver
But now I’m reborn
I was the Walrus
But now I’m John
And so dear friends
You’ll just have to carry on
The dream is over”

John Lennon – God

- Que vento, meu bem!

- Se quiser que eu feche os vidros…

- Não, tudo bem assim, quero sentir a estrada.

Assim eles seguiram, ela sentindo o vento, ou a estrada, ele apenas dirigindo. Um óculos aviador nos olhos, uma preguiça aparente em sua expressão e a mínima vontade possível de chegar à algum destino.

Enquanto ela sorria e sentia seus lábios secarem, ele apenas a olhava, indiferente.  Não que para ele ela fosse apenas mais uma, mas sim por tentar racionalizar seus sentimentos por aquela mulher. Aquela mulher que sorria sem motivo, corria sem motivo, brigava sem motivo, e cujo motivo pelo qual se apaixonou ainda não descobrira.

Mas lá estavam eles, correndo em uma rodovia qualquer, de um estado qualquer, à um lugar qualquer.  Ele já nem sabia se era ele quem não levava tudo aquilo à sério, ou se era ela e esse seria o motivo pelo qual havia caído por ela.

Viram um posto e decidiram parar para beberem algo. Ela com aquele olhar sempre perdido, ele com um olhar sempre fixo em um lugar: ela.

Sentaram e pediram uma soda, naquele lugar que parecia simbolizá-los, descuidado, quente, acolhedor. Se perguntavam quanto tempo aquele silêncio pertubador iria durar.

Ela se levantou, deu-lhe um beijo no rosto, saiu andando até a estrada, sentou no acostamento e ficou olhando os carros passarem, como quem assiste à um filme, ou à sua vida passando diante de seus olhos.

Ele não a seguiu, continuou lá, sentado tomando uma soda. Ela não olhou para trás para ver se ele vinha. Permaneceram naquela lacuna de um pequeno espaço, que representava a lacuna entre os seus sentimentos.

Tempo e espaço perderam sua dimensão e aquela distância que os separava jamais se desfez.

Daniela A. Marques

“People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence.”

Simon & Garfunkel

Cigarro, fumaça, bafo, cachaça, cama, insônia. Entre uns e outros, José errava pelos becos da cidade. Não tinha sol, não tinha lua, nem meio-dia, nem meia-noite, tudo se resumia a uma coisa só. Mulheres eram sempre as mesmas: Diferentes.

Já nem se levantava mais da cama. Não por estar com sono ou cansado, nem por medo de encarar a vida, e sim pela negação desse medo. Não correria o risco de fracassar se nunca tentasse, assim preservava sua auto-estima.

A seu modo os dias iam passados, dias e noites, gotas de chuva, e ele permanecia lá, naquela mesma cama. Por mais que se levantasse, ainda estava lá, deitado, imóvel na cama. Não seria um simples café preto que curaria sua sonolência crônica.

Maços e maços de cigarro iam para a caixa de lixo numa velocidade estonteante, garrafas e garrafas de cachaça seguiam o mesmo trajeto. Dias e noites, mais uma vez, passando despercebidos.  Até que ressaca fizesse a luz entrar como punhal em seus olhos, como ele bem conhecia.

Foi numa dessas ressacas que sonhou o que nunca deveria ter sonhado. Sonhou com sua filhinha, de vestido rosa e lacinhos no cabelo encaracolado, adorável.  Chamando, gritando, seu pai. Queria correr até ela, mas estava preso, preso a si mesmo.

Acordou, e chorou, chorou, até seus olhos não responderem ao pedido de sua dor por lágrimas. Naquele dia ele saiu da cama, de fato. Conseguiu enxergar a luz do sol e entender que era dia. A mesma luz que antes agia como punhal em seus olhos, agora ilumina sua mente, ilumina as ruas que atravessa, ilumina o dia.

Daniela A. Marques

”Há mais de uma semana eu não sei que horas são, havia um romance ao alcance da mão, mas o cigarro apagou enquanto eu decidia se o vício valia ou seria difícil demais.”

Engenheiros.

Já andando ela se recostou na janela e ficou ali observando  as gotas da chuva escorrendo sobre o vido empoeirado. Não era a primeira vez que fazia essa viagem, mas como em sua memória  não havia nenhum registro da primeira, esta é como se fosse.

Mariana se esqueceu como quem se esquece da infância. Se esqueceu da casa, do cheiro da comida, da cor da roupa das crianças, do cheiro do perfume do marido, Mariana  se perdeu em si.

A chuva cansou de distrair aqueles olhos cansados, e o sol já inaugurava um clarão no céu, seus olhos semicerrados faziam o possível para enxergar o ponto mais distante da estrada, sem saber onde aquilo ia dar, apenas olhava e esperava.

Com a chegada ao destino o fim da estrada finalmente chegou. Ela olhava intrigada aquela fachada amarela, o telhado desgastado, a grama mal cuidada, tentando buscar em sua memória alguma vaga lembrança daquilo que lhe parecia familiar, em vão.

Não tardou e ela pôs-se a bater na porta. Uma moça cujos olhos molhados eram estranhamente iguais aos seus a recebeu com um sorriso emocionado e um abraço saudoso.

A moça a convidou para entrar, trouxe xícaras de chá e uma pequena caixa de madeira. Beberam o chá,  e ficaram algum tempo em silêncio, apenas se olhando.

A moça perguntou como tinha sido a viagem, Mariana continuou em silêncio, talvez por não ter percebido a sua voz.  A moça então caiu em prantos ali, na sua frente. Mariana sentiu seus olhos igualmente marejados e se juntou a ela, ambas ali derramando em lágrimas sobre o sofá.

A moça então pegou a caixinha e tirou algumas fotos lá de dentro:

- Olha aqui, mãe: Essa sou eu. Essa daqui é a senhora, de vestido vermelho.

Mariana ficou olhando aquilo, não desacretitava do que a moça dizia, mas também não podia acreditar, afinal, se aquela fosse ela, saberia. Mas mesmo não sabendo o motivo, sentia que um laço a ligava à moça. E então ficou ali, dias, semanas, meses, até o tempo que podia.

A moça que lhe chamava de mãe estava sempre ao seu dispor, passava todo o tempo ao seu lado, mesmo quando Mariana não estava presente.

Certa noite a moça acordou com o gritar de Mariana: – Luisa! Luisa!

A moça correu até seu quarto não cabendo em si de tanta felicidade, e se agarrou à mãe, que deu seu último sorriso e partiu.

Daniela A. Marques

“O tempo passou na janela e só Carolina não viu”

Chico Buarque

Já era tardezinha, aquele clássico horário em que o sol resolve se despedir da forma mais singela e da qual você só se dá conta que ele realmente se foi quando de fato é posto um azul escuro no firmamento.

Saí andando pelas ruas em direção à minha casa, aquela que vez em quando dou as caras para lembrar que continuo vivo. Virei à esquerda como não de costume, afinal de contas, não estava lá com muita pressa mesmo, e pegar o caminho errado talvez me levasse à um lugar no mínimo mais interessante.

Em vão, logo de cara me dei com uma igreja, onde todos gritavam com ardor e entusiasmo. Mais em frente me dei com um butiquim de meia tigela, como aqueles que um dia cheguei a frequentar, resolvi então dar uma olhada no local, pedir um refrigerante, quem sabe.

Mas foi ali então que a vi, com sua saia rodada e avental na cintura, cabelos presos como quem é privado da liberdade que lhe é direito.

Ela veio ao meu encontro, eu esperava ansiosamente a sua chegada como se fossem horas de distância, o que levaria no máximo alguns poucos segundos, isto é, se ela não se distraísse com outra mesa, mais interessante do que a minha, com pessoas mais interessantes do que eu. Foi o que aconteceu, e me convenci logo de que a seus olhos, nada em mim era digno de atenção.

Me conformei, crente de que ao ouvir minha voz, chegar perto de mim, tudo isso mudaria, não que fosse pretensioso, era apenas uma esperança interna, afinal, não sou dotado de grande confiança.

Veio me atender, minutos-horas depois, com a voz a cansada e com um leve desdém na ponta da língua:

- Vai querer o quê?

Eu apenas saboreei a essência de suas poucas palavras, esquecendo até o desdém que elas traziam, porém, tal demora a responder a pergunta tornaram sua face enrugada e sua feição pavorosa.

- Afinal meu senhor, vai ficar esquentando o banco aí, ou vai pedir alguma coisa?

- Aguardente, por favor.

Aguardente, até me esqueci há quanto tempo não dizia esta palavra, há quanto tempo não sentia o gosto dela, gosto que agora desce ardendo pela minha garganta “revirginada” em quanto observava aquela, que prefiro chamar apenas de aquela.

Aquela mulher, aquela menina, aquela velha. Todas juntas em uma só.

Puxei seu avental num ímpeto, ela apenas me olhou como quem olha a um bêbado, coisa que eu não estava. Fui atrás dela como um bandido, sem que ela percebesse, foi entrando na cozinha e eu atrás, quando percebeu e repentinamente se virou irritada:

- Largue do meu pé, maluco! Bêbado!

Tamanha minha loucura, peguei as primeiras flores que vi no jardim da casa vizinha, e me dei a implorar que as aceitasse.

- Zé, tira esse louco daqui! Eu não quero ter problema, esse cara ainda var dar problema!

Passei a gritar, implorar por seu amor, implorar que aceitasse meu amor repentino e sem antecedentes, gritava como um louco, como se daquilo dependesse a minha vida, o que no momento, de fato dependia.

Garrafas e copos foram atirados contra mim, na tentativa de me parar, parar meu amor. Luzes de casas e apartamentos se acendiam, pessoas na rua apareciam, mas meu desejo sobressaía qualquer vergonha ou coisa parecida.

De repente, como uma sombra, uma ilusão, surgiu minha esposa, minha mulher, aquela que há tanto tempo não amava, não sentia, não via. Seus olhos enxaguados me encaravam, mas não me viam.Eu então retornei, voltei à realidade, voltei no tempo, num tempo em que um dia a amei. A aguardente sumiu das minhas veias e da minha mente numa velocidade inexplicável. Voltei a enxergar, aos meus olhos nada d’aquela, e sim esta.

Daniela A. Marques

“Sem final feliz, ou infeliz, atores sem papel”

Engenheiros.

Levad’, amigo, que dormides as manhanas frías;
toda-las aves do mundo d’amor dizían.
     Leda m’and’eu.

Levad’, amigo, que dormide-las frías manhanas;
toda-las aves do mundo d’amor cantavan.
     Leda m’and’eu.

Toda-las aves do mundo d’amor dizían;
do meu amor e do voss’en ment’havían.
     Leda m’and’eu.

Toda-las aves do mundo d’amor cantavan;
do meu amor e do voss’i enmentavan.
     Leda m’and’eu.

Do meu amor e do voss’en ment’havían;
vós lhi tolhestes os ramos en que siían.
     Leda m’and’eu.

Do meu amor e do voss’i enmentavan;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan.
     Leda m’and’eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que siían
e lhis secastes as fontes en que bevían.
     Leda m’and’eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
e lhis secastes as fontes u se banhavan.
     Leda m’and’eu.

Nuno Fernandes Torneol.

 

Levantei-me e fui em direção à porta e percebi que aquele não era meu ponto certo, e que havia dormido demais, teria que esperar o retorno daquele ônibus até o terminal. Em quanto isso não acontecia, passou a observar as pessoas daquele recinto.

   O homem sentado ao meu lado era uma figura bastante pitoresca, com aqueles olhos miúdos e cansados, por de trás de seus óculos verdes e velhos, aparência sorridente e amistosa. Começou a conversar comigo, contrariando a regra que proíbe conversar com os estranhos, isso em meio a muitos xingamentos e resmungões diante do trânsito congestionado.

  Ele dizia: “Logo voltarei para o interior de onde nunca deveria ter saído, se Deus quiser! Não suporto esse trânsito maldito!”, eu apenas escutava com um simples “aham” que por ele passava desapercebido, mas continuou, resmungando.

   Pegou então a bíblia (surpreendendo-me, afinal, não havia o visto com bíblia alguma), levantou-se e exclamou em voz alta: “O reino do mundo se tornou de nosso senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos!”.

 Todos então olharam-no com uma interrogação. Ele então se sentou novamente como se nada houvesse acontecido, e não reagia de forma alguma diante da minha cara de espanto, apenas olhou para me olhou e disse: “O que foi? Nunca me viu?”, pensei “Não, nunca te vi mesmo”, então o perguntei com que intuito ele exclamou essa frase, e ele me disse: “Ah, porque me deu vontade” com um sorrisinho maroto no canto dos lábios.

   Continuei a fitá-lo, e ele com seu olhar irônico continuou a prestar atenção no trânsito inquietando-se. Retomou uma conversa super produtiva comigo, perguntando-me em que ponto eu iria descer, e então respondi que iria até o terminal, ele deu uma balançada na cabeça e novamente aquele sorrisinho maroto formou-se no canto de seus lábios, como os de quem faz uma traquinagem ou ri de alguma.

   Fiquei cada vez mais intrigado com aquele homem que tinha uma aparência cansada, mas o ânimo de uma criança. Tirou da sua mochila surrada uma pilha de livros, mostrando-me o que estava aprendendo no seu curso de primeiro grau, como um filho que mostra a lição de casa aos pais, todo orgulhoso do seu desempenho e de sua conquista.

   Foi aí então que comecei a entender (ou pelo menos tentar) o motivo de ter exclamado aquela frase da bíblia, que depois de uma análise, notei que havia um tom de orgulho, tinha aprendido a ler, e queria mostrar a todos essa sua capacidade, que para muitos é uma coisa normal, corriqueira e sem merecimento de prestígio algum, mas que para ele é motivo de felicidade, uma realização, ou o início de uma realização, pois pretendia ir muito mais longe.

   Depois de muito reclamar do trânsito, levantou-se puxou a cordinha sinalizando que iria descer no próximo ponto, foi até a catraca, e mandou um grito de despedida ao motorista: “Amanhã a gente se vê Zé! Não esquece o dinheiro do cafezinho!” Passou por mim, desejou boa sorte, e desceu.

 

Por: Daniela A. Marques

 

Lá vamos nós, acabou o feriado,  acabou a “mamata”,voltamos a vida dura. Brasileiros e mais brasileiros que beberam, pularam, e afogaram suas mágoas (ou não) voltam a vida dura, e outros que não fizeram nada disso, também. Cidade começa a dar sinais de vida, e ligar as engrenagens para mais uma semana, já se preparando para parar novamente e aproveitar o final de semana que está aí! Esse é o nosso Brasil…(mostra a sua cara)

” Não existe pecado do lado de baixo do equador[...]“

Chico Buarque

Daniela.

Olhos de vidro fúnebres,

quebrados.

Voz afinada agora,

Silenciada.

Mãos entravadas,

Cruéis.

Coração enigmático,

Trancado.

Não, não ouses tentar se enxergar,

Espelho quebrados são incisivos.

Lágrimas secas não lavam,

Infectam.

Por : Daniela A. Marques.

Enfim estou concretizando uma idéia que há muito tempo tenho protelado. Resta saber se não será apenas fogo de palha,espero que não! Pretendo continuar a escrever algumas coisas aqui, sobre o meu dia-a-dia, sobre outras pessoas, outras coisas, outros dias, e assuntos os quais  julgo interessantes. Quase sempre finalizarei posts com algum trecho de uma música. (A música depende do meu estado espiritual)

Só pra finalizar,

“[...]É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar. “

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