Um ano possui trinta e um milhões quinhentos e trinta e seis mil segundos. Estava escrito na revista de curiosidades que Edivânia leu há um ano. 365 dias atrás, Edivânia abria portas e janelas, regava as plantas do quintal, cumprimentava os vizinhos,engomava as camisas do marido. 31 534 000 segundos atrás, Edivânia estava sentada no colo dele.
00 s
O telefone toca. Edenir atende. 23:59:59. Os fogos de artifício estão a ponto de bala. Edenir deixa a casa como os foguetes deixam o chão. Fugaz. Feliz ano novo.
01 s
Edivânia fecha as janelas e portas. Desliga a televisão. Guarda o champagne. Enxuga os olhos. Nesse momento, lembra-se da informação lida há um instante: 31 536 000 segundos até o fim do ano. E olha para o relógio.
30 s
Sim, será uma longa caminhada. Continua prostrada em frente ao relógio.
3600 s
Os vizinhos chegam para felicitar o jovem casal. Edivânia não desvia o olhar em direção a porta. Através do postigo aberto, eles tentam contato. Deparam-se, então, com a figura apática da senhora da casa. Continuam gritando, a supor que ela não os estivesse ouvindo.
4200 s
Os colegas de bairro, finalmente, desistem de importuná-la. Nesse momento, Edivânia ouve ao longe uma marchinha de carnaval que remonta tempos afugentados. Edenir pulando alegre entre as serpentinas. Sua maquiagem colorida reluzindo entre os confetes. Os dois abraçados sem compostura. Ouviu a voz dele sussurrar em seu ouvido: “Fecha a cara, Edi…”, se ouviu respondendo: “Não consigo!”, rindo loucamente. Beijaram-se. De novo. E de novo. E de novo… “Sabe o que eu faria se a gente casasse agora?” gritou o homem embriagado. Diante da cara interrogativa de Edi, respondeu, dessa vez, mais alto: “Um filho!”. Deseja, agora, ter um filho. Aliás, gostaria que já tivesse tido um filho. Um filho dele. Um filho de olhos negros e doces. Quem sabe agora ele estaria aqui.
61200
Enquanto a luz quente do crepúsculo acalenta seus ossos, Joana assobia uma conhecida cantiga de roda, no intuito de emudecer os comentários maldosos que invadem as frestas da casa:
- Vocês viram a Edivânia?… Parece que ensandeceu!- dizem as vizinhas gordas.
- Ih, ouvi falar que ela não sai da frente do relógio desde que tocaram as badaladas do ano novo – Disse outra, aparentada de um dos que foram à casa de Edivânia felicitá-la.
A cantiga salta aos lábios de Edivânia, quase pode cantá-la… as palavras dissolvem-se em sua boca. As vozes do quintal suprimem seu rouxinol desvairado.
interminado